domingo, 8 de novembro de 2009

Armado o circo do revezamento

Reagan e Bush derrubaram a lógica, e Lula pretende repetir a história
Fazer um governo inconteste é um tanto difícil. Nos Estados Unidos, desde o mandato do republicano Herbert Roover, de 1929 a 1933, o único presidente sucedido por um colega de partido eleito foi o republicano Ronald Reagan, que passou a faixa a George H. W. Bush. Muitos desses chefes de Estado conseguiram a reeleição, mas a sucessão foi, em geral, um desafio que não puderam vencer.

No Brasil, temos um exemplo emblemático. Juscelino Kubitschek fez, de 1956 a 1961, um louvável governo. Gastou muito, equivocou-se em algumas decisões estratégicas, é verdade. Porém, parece claro que, após os anos JK, o padrão de vida dos brasileiros melhorou de forma significativa. Por consenso, o mineiro foi um ótimo presidente. Mesmo assim, não conseguiu carregar seu antigo aliado General Lott ao Palácio do Planalto. Os brasileiros preferiram o falastrão Jânio Quadros.

Na cabeça do eleitor, deve haver duas vertentes muito fortes: a pessoa e os defeitos. Quando um presidente busca a reeleição, ficam marcados seus triunfos. É fácil falar sobre os acertos do governo e, através deles, catalisar concretamente uma vitória eleitoral. Por outro lado, quando o candidato é da situação, mas jamais governou, expõem-se os erros. A oposição critica qualquer passo em falso, e o pleiteante à presidência não tem o que argumentar, a não ser fazendo menções ao mandato do seu companheiro.

Outro ponto interessante é o inevitável desgaste de uma linha partidária. Pensemos no exemplo dos Estados Unidos. Após oito anos de democratas no poder, vêm à tona a cultura do extremamente livre mercado e a demanda por uma soberania nacional mais enfática. Quando, porém, um republicano governa por dois mandatos, a população se cansa dos excessivos gastos militares e injustiças sociais. É um revezamento quase natural.

Aqui no Brasil, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso começa a fazer força para cumprir a lógica. No início do mês, o tucano afirmou que o Governo Lula não favorece a democracia e clamou pelo "fim do comunismo" no país. FHC é esperto e sabe que a provável candidata petista, Dilma Rousseff, ainda não tem o apelo nacional de que precisa para ser eleita. Assim, declarações daqui e ações estratégicas dali reforçam a provável candidatura de José Serra ao Palácio do Planalto.

Conhecedor do tradicional revezamento entre linhas de governo, Lula reagiu rapidamente. E parece, mais uma vez, ter se equivocado em suas declarações. O petista garante que FHC , a fim de garantir a volta do PSDB à presidência, torce pelo seu fracasso. Ainda mais enfático, alegando que os tucanos estão treinando cabos eleitorais contra ele no Nordeste, comparou a atitude dos peessedebistas às de Adolf Hitler. “É um pouco do que Hitler fazia para os alemães pegarem os judeus, ou seja, vamos treinar gente para não permitir que eles sobrevivam. (...) Fiquei com pena. (...) Vão encontrar gente do PT, do PC do B, da CUT, do MST. Acho que vão se dar mal”, afirmou.

Acreditando em quem quiser, você sabe o que a história das democracias diz sobre as eleições de 2010. A lógica sugere uma ascensão tucana ao poder. Entretanto, se alguém tem força popular suficiente para derrubar regras, este é Lula. O circo do revezamento está armado, mas o presidente promete fazer a "pessoa" (ele, abraçado a Dilma Rousseff) vencer os "defeitos".

Foto: Wikipédia

domingo, 11 de outubro de 2009

Prêmio a Obama é termo de responsabilidade

No dia em que Barack Obama foi proclamado vencedor do Prêmio Nobel da Paz, a reação imediata foi de louvores ao presidente ianque. Nada mais justo. Sua indicação representa a preferência do mundo pela política internacional dos democratas, em detrimento da filosofia apocalíptica dos republicanos.
Obama é considerado pacifista porque sempre faz apologia ao desarmamento. Democrata, não é favorável a desmedidos empreendimentos intervencionistas. Ao suceder o sanguinário Bush e derrotar o sisudo McCain, seria inevitável um frisson mundial em torno de seu comportamento "boa praça".
Entretanto, uma análise um pouco mais fria e desconfiada nos leva a uma questão fundamental: o Prêmio Nobel da Paz, neste caso, é pelo que Obama fez ou pelo que pode deixar de fazer? A diplomacia internacional indica várias bombas-relógio. É verdade que os norte-americanos não mantiveram ríspidas as relações com Cuba e Iraque, por exemplo. Até mesmo Fidel Castro considera justa a láurea ao democrata.
Por outro lado, os Estados Unidos ainda convivem com vários inimigos de valores ocidentais. Afeganistão, através da ainda viva Al Qaeda e dos resquícios do Talibã, Irã e Coreia do Norte gostam de desafiar. Obama não é secretário-geral da ONU, mas presidente de uma superpotência. Se vir ameaçados alguns interesses cruciais, talvez aja como qualquer republicano. Aqui, desconsidere os fanfarrões latino-americanos. Eles só querem poder eterno em nível nacional. As ameaças reais são outras.
Voltando ao Nobel, ficou claro que a reação de Obama à "conquista" não foi exatamente empolgada. Ele se diz, evidentemente, "muito honrado", mas também acredita "não merecer" o galardão. Reflitamos: receber o Prêmio Nobel da Paz é uma grande responsabilidade. Como o democrata poderia promover uma guerra nos próximos anos? Seria um ridículo paradoxo.
Hoje, essa lógica não representa muito. Mas, sob eventuais circunstâncias, Obama pode ficar entre o apoio dos seus eleitores, que não perdoariam omissões diante de algumas peripécias orientais, e a popularidade mundial, que está atrelada à sua conduta pacifista. Às vezes, tenho a sensação de que as expectativas são maiores do que o próprio reconhecimento.
Imagem: Caras.pt

sábado, 3 de outubro de 2009

O hostil "Yes, We Créu"

Sediar, em dois anos, uma Copa do Mundo de Futebol e uma edição dos Jogos Olímpicos vai de encontro ao complexo de vira-lata do brasileiro, sistematizado por Nélson Rodrigues. Isso é bom? É claro que sim. Não apenas pelas melhorias estruturais que virão (ainda que com polpudos gastos e eventuais surripiadas governamentais), mas principalmente pelo ego patriótico, hoje inflado.
Por outro lado, devemos enxergar a Copa de 2014 e os Jogos de 2016 não de forma lúdica, mas como oportunidades. E, como toda chance, elas são fundamentadas pela lógica da faca de dois gumes. Organizar grandes eventos, fazer deles "os maiores de todos os tempos" (como sempre acontece, aliás) seriam elementos a catalisar a melhora da imagem do país, do poder magnético de atrair investimentos. Atrasar as obras, deixar necessidades primárias da população em segundo plano e perder-se no mau e velho jeitinho brasileiro, porém, seria um mico em escala global.
A primeira reação popular de impacto à vitória (parcial) do projeto Rio' 2016 foi ridícula. A expressão "Yes, We Créu" foi a mais propagada no Twitter, em todo o mundo, na última sexta-feira. Estaria eu sendo muito rabugento? Talvez. Mas a "brincadeira", uma paródia que envolve o antigo slogan da campanha presidencial de Barack Obama ("Yes, We Can" - "Sim, Nós Podemos") e a derrota da candidatura de Chicago, foi uma imediata afronta ao que chamaria de "espírito olímpico".
Explico: embora tenhamos, por aqui, a convicção de que "Yes, We Créu" foi apenas uma piada de bom gosto, fica claro que nenhum outro povo teria reação semelhante. Será possível que não saibamos comemorar um triunfo de forma a valorizá-lo? Temos de celebrar "cutucando" os outros, tripudiando? Algum entusiasta de Chicago foi deselegante ao referir-se à candidatura carioca? Desculpem-me os que pensam o contrário, mas, embora respeite sua opinião, devo dizer que concordo totalmente com o que escreveu, também no Twitter, o jornalista Ubiratan Leal.
A reação sarcástica à "vitória" e o oba-oba são elementos dos quais devemos fugir. Também não podemos viver mergulhados na mediocridade que só nos faz pensar: "não temos condições de organizar os Jogos". Temos, sim - o que não significa que o faremos. Falo, aqui, de potencial, não de profecia. Atenas e Pequim também não são pilares do desenvolvimento mundial.
O que precisamos fazer é inverter a lógica do jeitinho. É difícil como um processo natural, mas é possível com um pouco de esforço. Se os responsáveis pelos Jogos tiverem um pouco de afeição ao trabalho e muita aversão à roubalheira, o Brasil pode impressionar os brasileiros céticos (e eu tenho um pé nesse grupo, sim). Caso contrário, teremos a prova de que Sérgio Buarque de Hollanda terá razão eterna através de um livro escrito há mais de 70 anos.
Este texto também foi publicado no blog Por Dentro do Mundo da Bola.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Equívocos diplomáticos e políticos

As reflexões propostas por Paulo Roberto Almeida sentenciam: não houve "Golpe de Estado" em Honduras. A Constituição do pequeno país centro-americano classifica como "traição à Pátria" a violação da norma que obriga a alternância no exercício da Presidência da República. Questão de trauma ditatorial de mais uma nação outrora assolada pelo comando do pulso firme.
Como bem destaca Felipe Mendes, a origem do problema reside no fato de os Chefes de Estado da América Latina não terem ideias fundamentalmente democráticas. Isso porque um dos preceitos mais importantes dessa forma de República é justamente a não-perpetuação no poder. De toda forma, o boliviano Morales, o venezuelano Chávez e o colombiano (e direitista!) Uribe são afeitos aos tais plebiscitos que induzem a população a dizer "SIM" a reeleições e terceiros mandatos da vida.
Porém, como vimos, a Constituição de Honduras não sofreria apenas uma simples emenda caso Manuel Zelaya conseguisse perguntar aos cidadãos se eles queriam vê-lo por mais tempo à frente do país. Ela seria simplesmente ignorada. Zelaya seria o golpista! Sim, porque as Forças Armadas têm o dever de defender a soberania da nação e as normas previstas na Carta Magna. Não houve golpe. Ele foi apenas impedido.
De repente, aparecem Brasil, OEA e companhia ilimitada exigindo a recondução de um traidor da Pátria ao poder. Ajudamos a armar uma confusão sem conhecer as especificidades e a soberania dos preceitos em Honduras. Então, quer dizer que um país não pode mais elaborar, promulgar e fazer valer sua própria Constituição? Tanto reclamamos deles e, no final das contas, agimos da mesma forma que os mais sanguinários ianques. Ainda que as palavras do jornalista Caio Maia sejam verdadeiras.
STF: Num momento de crise de credibilidade do Supremo Tribunal Federal (eu não afirmo nada; as palavras são do ministro Joaquim Barbosa), o presidente Lula resolve endossar os motivos para críticas ao órgão máximo do Poder Judiciário. Após o falecimento do ministro Carlos Alberto Menezes Direito, nosso Chefe de Estado resolveu indicar José Antônio Toffoli para substituí-lo no STF.
Quem é José Antônio Toffoli? É quase um amigo íntimo do nosso presidente. Foi assessor parlamentar da liderança do PT na Câmara dos Deputados, advogado em três campanhas eleitorais de Lula, braço direito de José Dirceu na Casa Civil e, também convidado pelo presidente, Advogado-Geral da União. Toffoli tem apenas 41 anos e muita lenha para queimar no STF, caso seja "aprovado" na sabatina do Senado (que, por acaso, acontece hoje). Só lhe falta um currículo mais polpudo e lhe sobram controvérsias. O STF virou uma casa de encontro de bons amigos. Crível ou não? Você decide.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Este blog vive

Posso garantir que sim. Ele apenas foi forçado a férias por conta de outros trabalhos - alguns permanentes, outros temporários. Mas, assim que aparecer uma oportunidade clara (pode ser amanhã ou daqui a um mês), prometo atualizar este espaço com um texto interessante e respeitável. Enquanto isso, lembro-lhes que os textos antigos (muitos com bom nível de "atualidade") estão à disposição. Outros trabalhos em: Futebol Inglês: Ortodoxo e Moderno, Por Dentro do Mundo da Bola e Bastidores Revista Sem Fronteiras.

Obrigado pela paciência.

Daniel Leite.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Requentando a discussão

Caro leitor do Repercutiu, convido-lhe a conferir o meu novo post no blog "Bastidores Revista Sem Fronteiras". Falo aqui sobre as controvérsias que pairam na atmosfera americana desde 11 de setembro de 2001. Esteja à vontade para deixar sua opinião registrada na caixa de comentários do "Bastidores Revista Sem Fronteiras".

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Você sabe quem é esse homem?



"Lula - O filho do Brasil" chega aos cinemas em janeiro de 2010. Mas o trailer, ao qual você tem acesso nesta postagem, já deixa aguçados os fãs daquele que talvez seja o presidente mais popular da história deste país.

Muito me chamou a atenção a mensagem que aparece neste trailer: "você sabe quem é esse homem, mas não conhece sua história". Sei lá, mas acho que está tudo ao contrário. Eu, pelo menos, conheço a história dele em algum nível. Tenho consciência de que o cara é, no mínimo, fenomenal. Sua trajetória ascendente impressiona qualquer um.

A questão é que eu não sei quem é esse homem. Ele não me deixa descobrir. Afinal, Lula é capaz de passear por todas as facções políticas sem que o brasileiro perceba. O petista luta pelos trabalhadores, combate a fome, é populista, apoia Sarney, chama seu povo de ignorante, promove a dissolução do próprio partido, faz um carinho em Mercadante e fala um monte de coisas esquisitas.

É possível definir Lula? Não. De repente, o filme a que teremos acesso em janeiro explique melhor. Além, é claro, de contar a sua história. Só espero que a película não prepare o terreno para o jingle "É Lula de novo, com a força do povo" aparecer nas paradas de sucesso em outubro.